quarta-feira, 6 de maio de 2009

Palestra Dra. Paz Grumberg 2009

Anotações realizadas por prof. Neimar Machado de Sousa, 06 de maio de 2009.
Manhã
A aula iniciou com uma apresentação dos participantes, alunos de linha 3, Interculturalidade e Educação, do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Católica Dom Bosco. Os trabalhos foram coordenados pelos professores Antonio Brand e Adir Casaro Nascimento. Participaram da aula o prof. Celso Aoki, que trabalha com os kaiowá desde 1978. A dra. Paz Grumberg, antropóloga austríaca, possui larga experiência de trabalho de campo com os Kaiowá no Brasil e Paraguai e em sua página podem ser obtidas informações mais detalhadas sobre suas pesquisas. Educação indígena, educação escolar.
A antropóloga trabalhou na cooperação internacional, formação dos cooperantes para trabalho em outra cultura. Este trabalho envolveu de carpinteiros a médicos e teve enfoque na prática. Uma queixa muito comum entre os índios é que eles não têm educação, nem saúde nas aldeias. Que significa esta queixa? Na década de 70, muitos índios se negaram a aprender a ler e escrever. Usavam argumentos religiosos dizendo que o paikuará, guardião do sol, já havia ensinado tudo o que era necessário para ter uma vida digna. Para eles, papel e escrita era coisa de karaí, do estrangeiro. Nesta época havia muita pressão das ONGs para alfabetizar os Guarani. Por outro lado, houve também casos de grupos que pediram formalmente para ser alfabetizados. Educação indígena tradicional. Visão de educação indígena. Que significa não temos educação. Do ponto de vista guarani esta frase quase não tem tradução para o idioma guarani tradicional. Não há no guarani, a expressão ter alguma coisa, mas usar. Possuir propriedade é algo comum para os não-índios. Não temos escola bonita com painel solar com papel lápis sem professor suficiente, merenda escolar poderia ser melhor. Isto é ter educação. Aprenderam que o branco é um ser que não gosta de distribuir. Antigamente, havia projetos agrícolas onde era possível conseguir coisas. Sempre se encontra algum menino que não tem vontade de ir para a escola. Os adultos ficavam pressionando os meninos a ir para a escola. Tem de ir lá para ganhar a merenda. Cada um tem seu trabalho e o trabalho dos meninos é ir à escola para ganhar a merenda. É a leitura da modernidade dos índios. Estão contextualizando a escola desta forma. Tradicionalmente, não se tinha educação. Se vivia a educação, desde o nascimento até a morte. Os mais sábios quase não falam mais, se educa pela presença. Tradicionalmente, não se ensina por meio de palavras, mas tekoharuvicha, liderança religiosa mais avançada. Caso de crianças que são ativas no processo de educação no grupo. Sonhos das crianças. Acreditam que, antes da maturidade sexual, tem mais acesso aos níveis espirituais. Movimento de busca da terra sme mal. Procurar uma terra melhor, não para a agricultura, mas um lugar com energias boas, sem enfermidades, sem e conflitos. Espaço tranqüilo. Se não é possível encontrar este lugar na terra, então busca-se num mundo espiritual. Os guarani têm falado em 7 níveis espirituais. Alguns destes movimentos de busca pela terra sem mal foram liderados por mulheres crianças de 11 ou 12 anos. A idade é relativa para estes índios. A criança é percebida como uma alma madura. É comum pedir conselhos ao filho antes de nascer. O que acontece, ao nascer, é que a criança perde os conhecimentos divinos e se transforma em ser humano pequeno dependente. A ênfase é que a criança é uma alma madura. Socialização européia proíbe muito as crianças. Observou crianças que estavam no início do aprender a caminhar brincavam perto do fogo e com machetes e isto não espantava os pais. Somente nos últimos momentos é que um adulto não intervinha. No pequeno corpo há uma alma madura e que há esta alma encontrará o caminho. Há confiança de que a alma encontrará seu caminho sem ser direcionada. Há conselhos indiretos ou comentários. A maneira como se lida com morte também é diferente. Para nós, morrer é indigno. Aquele que está morrendo não é separado. Assim, as crianças aprender a lidar de maneira mais natural com a morte porque se morre em casa. A vida na terra é temporária e a verdadeira pátria da alma está em outro lugar. Morrer no hospital é indigno. A educação não-indígena contrasta com o modo dos índios educar. Tavytera dizem que os meninos, antes de passar pela festa da iniciação, não devem ir à escola. Uma parte é aprender a letra e a outra é a prática de ler. Se escuta no livro os nossos conhecimentos e depois os conhecimentos dos brancos. Ñanderu que fez o ordenamento político do mundo antes de voltar para a sua terra. Na época de 76 houve forte repressão dos Guarani por parte da ditadura dos Stroessner. Somente em 1978 se iniciava o processo de alfabetização entre os tavyterã. Como os Guarani estão se adaptando às novas exigências. O fato de que outros indígenas já sabiam escrever não causou muito impacto entre os índios. Fizeram uma experiência negativa com o papel. Sem papel eram presos pela polícia, sem papel não tinham terras, o fazendeiro mostrava um papel para dizer que tinha direito à terra. Colocavam nas entradas das aldeias placas com o nome do tekoha, nome do lugar. Até a palavra iletrado é vista como pejorativa e relacionada ao engano. A sensação dos índios é que ninguém se importava com eles. Experiência com seitas cristãs que fracassaram. Sensação de que ninguém trabalhava com eles. Fala do potencial que tem por lá. Como pensar uma educação mais próxima do que eles pensam. A educação tradicional mudou. Naquele tempo era bem forte. Observa que em alguns ambientes não se pratica mais esta regra. Uma das regras tradicionais é não bater nos filhos. Se bater, vai sair sombra de sangue na mão de quem bate. Se bater num menino vai ficar alterado. Concepção de criança. Educação seria um apoio à caminhada. Língua materna e processos próprios de aprendizagem, princípios da legislação brasileira para educação indígena. Educação é uma coisa e informação é outra. Primeiro é ajudar a conduzir, vem do latim educere. Experiências de escolas auto-organizadas chamadas de selvagens. Currículos elaborados pelos pais e professores. Viagem pela Colômbia. Experiências mais avançadas dos próprios índios elaborarem os currículos e o respeito. Fala de casos isolados que auxilia os índios. Cita caso do rio negro, relatados pela professora Marta Azevedo, e experiência de elaborar material de ensino nas línguas maternas. Com relação à diferença entre meninos e meninos não há diferença até aproximadamente 12 anos de idade. As crianças vão procurando comidas nas casas durante o dia ou cozinham a própria comida com pouco ou quase nenhuma ajuda dos brancos. O grupo de crianças educa a si mesmo quase sem nenhuma intervenção por parte dos adultos. Background: pós-guerra e o movimento de 68. Os europeus não sabem como lidar com os conflitos. Nos anos 80, se formou um grupo de pessoas interessadas em uma boa qualidade de vida. Compraram uma fábrica falida e procuraram dar um espaço aos próprios filhos. Este grupo de meninos desenvolveu um modelo de convivência muito semelhante ao que a antropóloga vivenciou entre os Guarani. Meninos de 2 a 14 anos. Educação indígena com respeito, livre. Educação dos alquimistas: acompanhar a personalidade e esperar que ela cresça. Polaridade entre educação indígena e educação escolar indígena. Letrado é sinônimo de cara esperto. Nas aldeias o professor é a pessoa letrada e acaba tendo mais participação política. Meninos usam sabugo de milho. Os dois sexos brincam com as mesmas coisas. Garotos levam bonecas e cozinham também. Observa que as meninas até 12 anos, as meninas tem mais personalidade. Há uma fase de educação formal: festa de iniciação dos meninos, entre 9 e 12 anos. Passam fase de reclusão na casa cerimonial. Comem só milho branco e banana nos tempos modernos. Chegam os padrinhos para ensinar nas técnicas religiosas: usar as pequenas flautas, mbaraká, rezas bailadas em círculo (jeroky). Guiados pelos padrinhos e acompanhados pelas mulheres com o takuá. As meninas passam por um ritual de iniciação no qual raspam a cabeça. Começo da primeira menstruação até o fim da segunda. As meninas ficam recolhidas. As mulheres são muito mais discretas com sua vida no geral. Tradicionalmente, os Guarani acreditam que há duas almas que habitam o corpo. Ñe’e, alma/palavra, e ??. a alma que habita o corpo está relacionado ao sangue, por isso, transfusão de sangue somente entre parentes. A pintura tem relação com a alma do corpo. Um menino que não tem mais a base tradicional vai aprender a nossa visão de mundo. Os conceitos têm de ser transmitidos indireta ou indiretamente. Cita a Europa que supostamente é civilizada/cristianizada, mas com muitos elementos que fazem referência ao passado antigo xamânico. Se não sabemos como lidar de maneira respeitosa com relação a determinado tema, então é melhor guardar distância. Caso do pajé vai, ou feiticeiro. Bom conhecimento é aquele que se tem um bom uso. A cada dois anos se vai dobrar a quantidade dos conhecimentos no mundo do branco. Primeira briga matrimonial entre os deuses como norma para lidar com os conflitos matrimoniais hoje. No Paraguai, nem indígena, nem não-indígena acreditam tanto no papel. O descuido ocorre com as coisas do branco. As coisas deles são muito bem cuidadas. Questão da mágica. Cita que em nossa sociedade há magia moderna como, por exemplo, auto-ajuda, pensamento positivo. Eu não tenho educação é uma forma de conseguir coisas. Eu não tenho saúde também. Há elemento do prestígio que algumas coisas dão. Há coisas tradicionais e coisas novas que dão prestígio. Painel solar, câmera de vídeo. Estas coisas dão prestígio. Chave da educação guarani que é o espaço para que a criança aprenda. Deixar ter raiva e com isso aprendem a lidar com a raiva. Vencer a raiva é caminhar para não ter mais no final da vida. Não negar a raiva, mas saber lidar. Líder político precisa ter raiva para agir, já o líder religioso que necessita superar a raiva. Tarde Com relação aos jovens e as mulheres. Tem de admitir que não sabemos nada deles. Necessidade de conhecer a aspiração dos jovens guarani nas aldeias. Comparar os jovens de uma comunidade antiga com outro tekoha mais novo, de 84 em diante. Afirma que há diferença significativa nestes dois tipos de comunidades. Trabalho na cana de açúcar e como isto influi na vida familiar deles. Situação de desorientação dos jovens, crise não somente relacionada à puberdade. Intenção de identificar-se com o jovem trabalhador rural. Música, roupas. Pode ser que na cidade haja maior identificação com os jovens urbanos devido à proximidade. Afirma que aqui são pouco conhecidas as comunidades mais ao sul e que tomamos por referência mais Dourados e Caarapó. Há casos de muitos jovens abandonados, instabilidade familiar. O avô Metabolismo indígena é diferente. Têm tolerância menor ao álcool. É o caso dos japoneses também que sentem muito mais rápido que os europeus. Por que as orientações tradicionais não funcionam mais. Desmatamento no Paraguai nos anos 1974. Em poucos anos desmataram o departamento de Amambai. Ingenuamente, pensava que nas comunidades guarani isto não iria acontecer com a sua floresta sagrada. Grande contradição. Animais de caça têm sua regra mitológica. Afirma que isto ficou mais claro na amazônia colombiana. Presenciou que as pessoas não aceitavam usar certas coisas antes de conhecer a origem. Menciona a importância de conhecer a origem das coisas para as sociedades indígenas. Caso da democracia. Lógica mitológica. Conhecer a origem é a possibilidade de dar um uso bom a alguma coisa. No caso de cortar árvores, iam com os brancos que segundo eles tinham outras regras espirituais e neste caso ao voltar para suas comunidades não consegue mais entrar na sociedade guarani. Vêem as árvores como objetos já que nenhum cuidador religioso veio punir os brancos pelo seu ato. Quebrar uma regra e não acontecer nada tem uma dinâmica mais generalizada e implicação no todo. Xamanismo é mais ativo na Colômbia, mas está diminuindo e perdendo o poder. Menciona a medicina branca. Dependem menos da caça e não precisam seguir todas as regras do xamã. Xamã cuida para que não seja usado excessivamente o meio ambiente. Assim, vai se perdendo a orientação tradicional. Por outro lado, estes jovens estão excluídos porque não tem pleno acesso ao mundo dos brancos. Outro elemento é o fato de que a idade é um fator complicador que intensifica os problemas. As famílias mais tradicionais procuram evitar o contato com o branco e esta diferença está visível no corpo dos índios. As comunidades mantêm ainda focos de orientação tradicional. Comenta sobre o casamento que o contato mais intenso com o entorno, nas changas e as conversas sobre mulheres com não-índios, além das relações com prostitutas, tem mudado o modo de relacionamento no interior das comunidades. Dra. Paz afirma que conheceu várias histórias de vida de pessoas que voltaram a se equilibrar ou para o lado do branco ou para o lado tradicional. A condição do órfão é impactante na formação da personalidade indígena. Não ter quem cuidar implica em perder sentido nesta sociedade. Precisamos ter claro qual o conceito dos índios de educação para então decifrar o que o outro quer. E se esta decifração ocorre num lugar, não significa que ocorrerá em outro. Conselho para mestrando que quer fazer pesquisa neste campo: espírito de aventura, resposta da Dra. Paz. Ter tempo e disposição. Reduzir a temática para conseguir entender. Não dá pra ficar uma semana na aldeia. Adaptar-se ao ritmo. Nosso ritmo é muito rápido. O ritmo da aldeia é diferente e nas mais tradicionais é mais lento. Quando nos adaptamos ao ritmo, a comunicação vai ocorrer porque eles são muito comunicativos gostam de ouvir coisas dos brancos e contar coisas deles. Deixar a iniciativa com os índios. Uma das coisas mais importantes. Não tentar fingir o que não é. Comportar-se tão honestamente quanto é possível. As mulheres tinham direito de uso do produto do roçado. Muitas mulheres curandeiras, tornaram-se, depois, agente de saúde. O colonialismo deu mais poder aos homens do que de fato tinham nas comunidades tradicionais. As mulheres, conseqüentemente, ficaram com muito pouca participação na política. Em muitos casos é a mulher da liderança política que tem direito à terra. Observa que se perdeu as regras de respeito às mulheres. Não há mecanismo formal para afirmação das mulheres. Relatório do CIMI sobre violência nas áreas indígenas indica que 70% dos casos são nas áreas guarani. Segundo hipótese da Dra. Paz Grünberg este aumento da violência expressa uma saída ainda que insuficiente da passividade expressa pela violência contra si mesmo que é o suicídio. A relação do guarani com o conceito de violência é diferente do nosso. Dra. Paz. Grünberg comenta que no Paraguai que alguém que assassinou é acompanhado por muitos anos pela comunidade até que se reabilite. Comenta ainda que elemento chave é a terra. Embora se diga que a mulher é a família que segura os filhos. Por outro lado não tem tantos recursos para se recompor internamente. Aí fica a solução a se recorrer aos conselhos tutelares. As mulheres tem usado estas alternativas para recuperar seu papel.

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