Este período histórico foi determinado pelas transformações ocorridas no século XVIII desencadeadas a partir da Revolução Francesa (1789) e da Revolução Industrial iniciada na Inglaterra, que abriram o caminho para o avanço do capitalismo para outros países. No início do século XIX, a hegemonia mundial inglesa na área econômica amplia-se com a conquista de novos mercados. A França, por outro lado, sob o comando de Napoleão Bonaparte, passava a lutar pelo domínio de outros países, inclusive Portugal. Em 1808, a família real portuguesa transferiu-se para o Brasil, para fugir do ataque francês. A presença da corte portuguesa no Brasil, com todo o seu aparato, propiciou o desencadeamento de transformações na Colônia. Neste processo, foram abertos os portos brasileiros ao comércio exterior acabando com o monopólio português. Para suprir as carências oriundas do longo período colonial foram criadas várias instituições de ensino superior, “com a finalidade estritamente utilitária, de caráter profissional, visando formar os quadros exigidos por essa nova situação.” (WEREBE, 1994). Foram criados cursos de nível superior: na Academia Real da Marinha (1808), Academia Real Militar (1810), Academia Médico-cirúrgica da Bahia (1808) e Academia Médico-cirúrgica do Rio de Janeiro (1809). Após três séculos de domínio político e exploração econômica do Brasil por parte de Portugal, que manteve durante todo o período colonial uma posição parasitária em relação à produção brasileira, com o novo contexto da economia mundial, de expansão do capitalismo, que impunha uma nova postura dos países em relação à produção e a comercialização, já não era possível suportar domínio de Portugal, que onerava os produtos brasileiros na disputa por mercados e onerava a aquisição de mercadorias estrangeiras necessárias para o consumo interno no Brasil. Diante do enfraquecimento econômico e político de Portugal e o contexto de contradição entre a política econômica portuguesa e a política econômica internacional ocorreu a conquista brasileira de sua autonomia política e econômica. A Independência brasileira foi conquistada em 1822, com base em acordos políticos de interesse da classe dominante, composta da camada senhorial brasileira, que entrava em sintonia com o capitalismo europeu. A Assembléia Constituinte e Legislativa instalada após a proclamação da Independência para legar nossa primeira Constituição, iniciou os trabalhos propondo uma legislação particular sobre a instrução, com o objetivo de organizar a educação nacional. A Constituição outorgada em 1824, que durou todo o período imperial, destacava, com respeito à educação: “A instrução primária é gratuita para todos os cidadãos.” Em 15 de outubro de 1827, a Assembléia Legislativa aprovou a primeira lei sobre a instrução pública nacional do Império do Brasil, estabelecendo que “em todas as cidades, vilas e lugares populosos haverá escolas de primeiras letras que forem necessárias”. A lei estabelecia o seguinte: os presidentes de província definiam os ordenados dos professores; as escolas deviam ser de ensino mútuo; os professores que não tivessem formação para ensinar deveriam providenciar a necessária preparação em curto prazo e às próprias custas; determinava os conteúdos das disciplinas; devem ser ensinados os princípios da moral cristã e de doutrina da religião católica e apostólica romana; deve ser dada preferência aos temas, no ensino de leitura, sobre a Constituição do Império e História do Brasil. Relatórios do Ministro Lino Coutinho de 1831 a 1836 denunciaram os parcos resultados da implantação da Lei de 1827, mostrando o mau estado do ensino elementar no país. Argumentava que, apesar dos esforços e gastos do Estado no estabelecimento e ampliação do ensino elementar, a responsabilidade pela precariedade do ensino elementar era das municipalidades pela ineficiente administração e fiscalização, bem como culpava os professores por desleixo e os alunos por vadiagem. Admitia, no entanto, que houve abandono do poder público quanto ao provimento dos recursos materiais, como os edifícios públicos previstos pela lei, livros didáticos e outros itens. Também apontava o baixo salário dos professores; a excessiva complexidade dos conhecimentos exigidos pela lei e que dificultavam o provimento de professores; e a inadequação do método adotado em vista das condições particulares do país. Podemos observar, nos relatórios do ministro, que o entusiasmo inicial com a instrução popular esbarrava não somente nas condições reais do país, mas no discurso ideológico do governo que dizia estar preocupado em levar a instrução ao povo, sem providenciar, todavia, os recursos para criar as condições necessárias para a existência das escolas e para o trabalho dos professores. O Ato Adicional de 6 de agosto de 1834 instituiu as Assembléias Legislativas provinciais com o poder de elaborar o seu próprio regimento, e, desde que estivesse em harmonia com as imposições gerais do Estado, caber-lhe-ia legislar sobre a divisão civil, judiciária e eclesiástica local; legislar sobre a instrução pública, repassando ao poder local o direito de criar estabelecimentos próprios, além de regulamentar e promover a educação primária e secundária. Ao Governo Central ficava reservado o direito, a primazia e o monopólio do ensino superior. Em 1835, surgiu a primeira escola normal do país, em Niterói. Baseado nessa Lei, cada província passava a responder pelas diretrizes e pelo funcionamento das suas escolas de ensino elementar e secundário. Logo se defrontaram, porém, com as dificuldades para dar instrução de primeiras letras aos moradores dos lugares distantes e isolados. Neste período, o acesso à escolarização era precário ou inexistente, tanto por falta de escolas, quanto de professores. Para atender a demanda de docentes, saíram os decretos para criação das primeiras escolas normais no Brasil, com o objetivo preparar professores para oferecer a instrução de primeiras letras. Graças à descentralização da educação através do Ato Adicional, em 1835 surgiu a primeira Escola Normal do país, em Niterói. Em seguida outras Escolas Normais foram criadas visando melhorias no preparo do docente. Em 1836 foi criada a da Bahia, em 1845 a do Ceará e, em 1846, a de São Paulo. Em 1837, na cidade do Rio de Janeiro foi criado o Colégio Pedro II, onde funcionava o Seminário de São Joaquim. O Colégio Pedro II fornecia o diploma de bacharel, título necessário na época para cursar o nível superior. Foram também criados nessa época colégios religiosos e alguns cursos de magistério em nível secundário, exclusivamente masculinos. O colégio de Pedro II era freqüentado pela aristocracia, onde era oferecido o melhor ensino, a melhor cultura, com o objetivo de formar as elites dirigentes. Por este motivo, era considerado uma escola modelo para as demais no país. A presença do Estado na educação no período imperial era quase imperceptível, pois estávamos diante de uma sociedade escravagista, autoritária e formada para atender a uma minoria encarregada do controle sobre as novas gerações. Ficava evidenciada a contradição da lei que propugnava a educação primária para todos, mas na prática não se concretizava. O governo imperial atribuía às províncias “[...]a responsabilidade direta pelo ensino primário e secundário, através das leis e decretos que vão sendo criados e aprovados, sem que seja aplicado, pois não existiam escolas e poucos eram os professores.”(NASCIMENTO,2004, p. 95). Em 1879, a reforma de Leôncio de Carvalho instituiu a liberdade de ensino, o que possibilitou o surgimento de colégios protestantes e positivistas. Em 1891, Benjamim Constant, baseado nos ensinamentos de Augusto Comte, elaborou uma reforma de ensino de nítida orientação positivista, defensora de uma ditadura republicana dos cientistas e de uma educação como prática neutralizadora das tensões sociais. O mundo desenvolvido caminhava para uma organização econômica que era considerada “mundial”, onde o ideal para os teóricos idealizadores desta economia era assegurar a divisão internacional do trabalho para que “[...] garantisse o crescimento máximo da economia.[...] não tinha sentido tentar produzir bananas na Noruega, pois elas podiam ser produzidas muito mais barata em Honduras.” (HOBSBAWM, 1992, p.66) O liberalismo econômico impunha as regras e tudo o que era possível para demonstrar que esta prática era melhor para economia mundial. Nesta perspectiva os conflitos estavam estabelecidos: a Industrialização e a Depressão “[...]formaram-nas num grupo de economias rivais, em que os ganhos de uma pareciam ameaçar a posição de outras. A concorrência se dava não só entre empresas, mas também entre nações.” (HOBSBAWM, 1992, p.68) Com o protecionismo industrial estabelecido, as bases industriais do mundo, adequaram-se e para isso fez se necessário incentivar as poucas indústrias nacionais para este novo modelo e para produzirem com vistas ao mercado interno. Era preciso mão-de-obra preparada, escolarizada e o Brasil, com sua economia baseada na agricultura, na exploração bruta do trabalho, não atingia as exigências dos interesses externos. Diante de muitos conflitos, o Brasil passa a ser denominado Republicano com a libertação dos escravos para atender às demandas do mercado internacional. E, paralelo a isso, são incentivados os discursos e pequenas ações para acabar com o analfabetismo no país. Será realmente avanço ser alfabetizado? Que representa a escola e a letra no contexto da interculturalidade? No final do Império, o quadro geral do ensino era de poucas Instituições Escolares, com apenas alguns liceus provinciais nas capitais, colégios privados bem instalados nas principais cidades, cursos normais em quantidade insatisfatórias para as necessidades do país. Alguns cursos superiores quem garantiam o projeto de formação (médicos, advogados, de políticos e jornalistas).
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
quarta-feira, 30 de setembro de 2009
Etnia e educação.
Sobre o artigo KREUTZ, Lucio. Etnia e Educação. Cadernos de Pesquisas, São Paul, n. 01, p. 19-96, jul 1971. Destaque um fragmento para definir identidade étnica, trace esquematicamente o percurso que a diversidade cultural recebeu ao longo da história do ocidente.
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História da educação e interculturalidade;
sábado, 27 de junho de 2009
O que é, afinal, Estudos Culturais?
Este é o título do livro organizado e traduzido por Tomaz Tadeu da Silva, da editora Autêntica, 2004. Este obra, introdutória, apresenta os processos culturais como intimamente vindulados com as relações sociais, especialmente com as relações e as formações de classe, com as divisões sexuais, com a estruturação racial das relações sociais e com as opressões de idade. A cultura está envolvida com o poder, contribuindo para produzir assimetrias nas capacidades de definir e de satisfazer suas necessidades. Ela não é um campo autônomo nem externamente determinado, mas um local de diferença e de luta social.
domingo, 10 de maio de 2009
Presença do Invisível
Em visita recente ao Museu do Índio/Funai aproveitei para ver a presença do invisível. Uma exposição que trata da vida cotidiana e ritual entre os povos indígenas do Oiapoque. É possível visitar a exposição de terça a sexta das 9h às 17h30min e sábados, domingos e feriados das 13h às 17h. O Museu do Índio fica na rua das palmeiras, 55, Botafogo, Rio de Janeiro. O site do museu é www.museudoindio.gov.br
O diretor do museu, José Carlos Levinho, antropólogo, expressa em seu discurso, que seu objetivo é dar o mesmo tratamento à cultura material e imaterial dos povos indígenas do Brasil que é dispensado a uma pintura como a Monalisa no Louvre. Vale uma visita e uma aposta neste trabalho.
O diretor do museu, José Carlos Levinho, antropólogo, expressa em seu discurso, que seu objetivo é dar o mesmo tratamento à cultura material e imaterial dos povos indígenas do Brasil que é dispensado a uma pintura como a Monalisa no Louvre. Vale uma visita e uma aposta neste trabalho.
quarta-feira, 6 de maio de 2009
Palestra Dra. Paz Grumberg 2009
Anotações realizadas por prof. Neimar Machado de Sousa, 06 de maio de 2009.
Manhã
A aula iniciou com uma apresentação dos participantes, alunos de linha 3, Interculturalidade e Educação, do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Católica Dom Bosco. Os trabalhos foram coordenados pelos professores Antonio Brand e Adir Casaro Nascimento. Participaram da aula o prof. Celso Aoki, que trabalha com os kaiowá desde 1978. A dra. Paz Grumberg, antropóloga austríaca, possui larga experiência de trabalho de campo com os Kaiowá no Brasil e Paraguai e em sua página podem ser obtidas informações mais detalhadas sobre suas pesquisas. Educação indígena, educação escolar.
A antropóloga trabalhou na cooperação internacional, formação dos cooperantes para trabalho em outra cultura. Este trabalho envolveu de carpinteiros a médicos e teve enfoque na prática. Uma queixa muito comum entre os índios é que eles não têm educação, nem saúde nas aldeias. Que significa esta queixa? Na década de 70, muitos índios se negaram a aprender a ler e escrever. Usavam argumentos religiosos dizendo que o paikuará, guardião do sol, já havia ensinado tudo o que era necessário para ter uma vida digna. Para eles, papel e escrita era coisa de karaí, do estrangeiro. Nesta época havia muita pressão das ONGs para alfabetizar os Guarani. Por outro lado, houve também casos de grupos que pediram formalmente para ser alfabetizados. Educação indígena tradicional. Visão de educação indígena. Que significa não temos educação. Do ponto de vista guarani esta frase quase não tem tradução para o idioma guarani tradicional. Não há no guarani, a expressão ter alguma coisa, mas usar. Possuir propriedade é algo comum para os não-índios. Não temos escola bonita com painel solar com papel lápis sem professor suficiente, merenda escolar poderia ser melhor. Isto é ter educação. Aprenderam que o branco é um ser que não gosta de distribuir. Antigamente, havia projetos agrícolas onde era possível conseguir coisas. Sempre se encontra algum menino que não tem vontade de ir para a escola. Os adultos ficavam pressionando os meninos a ir para a escola. Tem de ir lá para ganhar a merenda. Cada um tem seu trabalho e o trabalho dos meninos é ir à escola para ganhar a merenda. É a leitura da modernidade dos índios. Estão contextualizando a escola desta forma. Tradicionalmente, não se tinha educação. Se vivia a educação, desde o nascimento até a morte. Os mais sábios quase não falam mais, se educa pela presença. Tradicionalmente, não se ensina por meio de palavras, mas tekoharuvicha, liderança religiosa mais avançada. Caso de crianças que são ativas no processo de educação no grupo. Sonhos das crianças. Acreditam que, antes da maturidade sexual, tem mais acesso aos níveis espirituais. Movimento de busca da terra sme mal. Procurar uma terra melhor, não para a agricultura, mas um lugar com energias boas, sem enfermidades, sem e conflitos. Espaço tranqüilo. Se não é possível encontrar este lugar na terra, então busca-se num mundo espiritual. Os guarani têm falado em 7 níveis espirituais. Alguns destes movimentos de busca pela terra sem mal foram liderados por mulheres crianças de 11 ou 12 anos. A idade é relativa para estes índios. A criança é percebida como uma alma madura. É comum pedir conselhos ao filho antes de nascer. O que acontece, ao nascer, é que a criança perde os conhecimentos divinos e se transforma em ser humano pequeno dependente. A ênfase é que a criança é uma alma madura. Socialização européia proíbe muito as crianças. Observou crianças que estavam no início do aprender a caminhar brincavam perto do fogo e com machetes e isto não espantava os pais. Somente nos últimos momentos é que um adulto não intervinha. No pequeno corpo há uma alma madura e que há esta alma encontrará o caminho. Há confiança de que a alma encontrará seu caminho sem ser direcionada. Há conselhos indiretos ou comentários. A maneira como se lida com morte também é diferente. Para nós, morrer é indigno. Aquele que está morrendo não é separado. Assim, as crianças aprender a lidar de maneira mais natural com a morte porque se morre em casa. A vida na terra é temporária e a verdadeira pátria da alma está em outro lugar. Morrer no hospital é indigno. A educação não-indígena contrasta com o modo dos índios educar. Tavytera dizem que os meninos, antes de passar pela festa da iniciação, não devem ir à escola. Uma parte é aprender a letra e a outra é a prática de ler. Se escuta no livro os nossos conhecimentos e depois os conhecimentos dos brancos. Ñanderu que fez o ordenamento político do mundo antes de voltar para a sua terra. Na época de 76 houve forte repressão dos Guarani por parte da ditadura dos Stroessner. Somente em 1978 se iniciava o processo de alfabetização entre os tavyterã. Como os Guarani estão se adaptando às novas exigências. O fato de que outros indígenas já sabiam escrever não causou muito impacto entre os índios. Fizeram uma experiência negativa com o papel. Sem papel eram presos pela polícia, sem papel não tinham terras, o fazendeiro mostrava um papel para dizer que tinha direito à terra. Colocavam nas entradas das aldeias placas com o nome do tekoha, nome do lugar. Até a palavra iletrado é vista como pejorativa e relacionada ao engano. A sensação dos índios é que ninguém se importava com eles. Experiência com seitas cristãs que fracassaram. Sensação de que ninguém trabalhava com eles. Fala do potencial que tem por lá. Como pensar uma educação mais próxima do que eles pensam. A educação tradicional mudou. Naquele tempo era bem forte. Observa que em alguns ambientes não se pratica mais esta regra. Uma das regras tradicionais é não bater nos filhos. Se bater, vai sair sombra de sangue na mão de quem bate. Se bater num menino vai ficar alterado. Concepção de criança. Educação seria um apoio à caminhada. Língua materna e processos próprios de aprendizagem, princípios da legislação brasileira para educação indígena. Educação é uma coisa e informação é outra. Primeiro é ajudar a conduzir, vem do latim educere. Experiências de escolas auto-organizadas chamadas de selvagens. Currículos elaborados pelos pais e professores. Viagem pela Colômbia. Experiências mais avançadas dos próprios índios elaborarem os currículos e o respeito. Fala de casos isolados que auxilia os índios. Cita caso do rio negro, relatados pela professora Marta Azevedo, e experiência de elaborar material de ensino nas línguas maternas. Com relação à diferença entre meninos e meninos não há diferença até aproximadamente 12 anos de idade. As crianças vão procurando comidas nas casas durante o dia ou cozinham a própria comida com pouco ou quase nenhuma ajuda dos brancos. O grupo de crianças educa a si mesmo quase sem nenhuma intervenção por parte dos adultos. Background: pós-guerra e o movimento de 68. Os europeus não sabem como lidar com os conflitos. Nos anos 80, se formou um grupo de pessoas interessadas em uma boa qualidade de vida. Compraram uma fábrica falida e procuraram dar um espaço aos próprios filhos. Este grupo de meninos desenvolveu um modelo de convivência muito semelhante ao que a antropóloga vivenciou entre os Guarani. Meninos de 2 a 14 anos. Educação indígena com respeito, livre. Educação dos alquimistas: acompanhar a personalidade e esperar que ela cresça. Polaridade entre educação indígena e educação escolar indígena. Letrado é sinônimo de cara esperto. Nas aldeias o professor é a pessoa letrada e acaba tendo mais participação política. Meninos usam sabugo de milho. Os dois sexos brincam com as mesmas coisas. Garotos levam bonecas e cozinham também. Observa que as meninas até 12 anos, as meninas tem mais personalidade. Há uma fase de educação formal: festa de iniciação dos meninos, entre 9 e 12 anos. Passam fase de reclusão na casa cerimonial. Comem só milho branco e banana nos tempos modernos. Chegam os padrinhos para ensinar nas técnicas religiosas: usar as pequenas flautas, mbaraká, rezas bailadas em círculo (jeroky). Guiados pelos padrinhos e acompanhados pelas mulheres com o takuá. As meninas passam por um ritual de iniciação no qual raspam a cabeça. Começo da primeira menstruação até o fim da segunda. As meninas ficam recolhidas. As mulheres são muito mais discretas com sua vida no geral. Tradicionalmente, os Guarani acreditam que há duas almas que habitam o corpo. Ñe’e, alma/palavra, e ??. a alma que habita o corpo está relacionado ao sangue, por isso, transfusão de sangue somente entre parentes. A pintura tem relação com a alma do corpo. Um menino que não tem mais a base tradicional vai aprender a nossa visão de mundo. Os conceitos têm de ser transmitidos indireta ou indiretamente. Cita a Europa que supostamente é civilizada/cristianizada, mas com muitos elementos que fazem referência ao passado antigo xamânico. Se não sabemos como lidar de maneira respeitosa com relação a determinado tema, então é melhor guardar distância. Caso do pajé vai, ou feiticeiro. Bom conhecimento é aquele que se tem um bom uso. A cada dois anos se vai dobrar a quantidade dos conhecimentos no mundo do branco. Primeira briga matrimonial entre os deuses como norma para lidar com os conflitos matrimoniais hoje. No Paraguai, nem indígena, nem não-indígena acreditam tanto no papel. O descuido ocorre com as coisas do branco. As coisas deles são muito bem cuidadas. Questão da mágica. Cita que em nossa sociedade há magia moderna como, por exemplo, auto-ajuda, pensamento positivo. Eu não tenho educação é uma forma de conseguir coisas. Eu não tenho saúde também. Há elemento do prestígio que algumas coisas dão. Há coisas tradicionais e coisas novas que dão prestígio. Painel solar, câmera de vídeo. Estas coisas dão prestígio. Chave da educação guarani que é o espaço para que a criança aprenda. Deixar ter raiva e com isso aprendem a lidar com a raiva. Vencer a raiva é caminhar para não ter mais no final da vida. Não negar a raiva, mas saber lidar. Líder político precisa ter raiva para agir, já o líder religioso que necessita superar a raiva. Tarde Com relação aos jovens e as mulheres. Tem de admitir que não sabemos nada deles. Necessidade de conhecer a aspiração dos jovens guarani nas aldeias. Comparar os jovens de uma comunidade antiga com outro tekoha mais novo, de 84 em diante. Afirma que há diferença significativa nestes dois tipos de comunidades. Trabalho na cana de açúcar e como isto influi na vida familiar deles. Situação de desorientação dos jovens, crise não somente relacionada à puberdade. Intenção de identificar-se com o jovem trabalhador rural. Música, roupas. Pode ser que na cidade haja maior identificação com os jovens urbanos devido à proximidade. Afirma que aqui são pouco conhecidas as comunidades mais ao sul e que tomamos por referência mais Dourados e Caarapó. Há casos de muitos jovens abandonados, instabilidade familiar. O avô Metabolismo indígena é diferente. Têm tolerância menor ao álcool. É o caso dos japoneses também que sentem muito mais rápido que os europeus. Por que as orientações tradicionais não funcionam mais. Desmatamento no Paraguai nos anos 1974. Em poucos anos desmataram o departamento de Amambai. Ingenuamente, pensava que nas comunidades guarani isto não iria acontecer com a sua floresta sagrada. Grande contradição. Animais de caça têm sua regra mitológica. Afirma que isto ficou mais claro na amazônia colombiana. Presenciou que as pessoas não aceitavam usar certas coisas antes de conhecer a origem. Menciona a importância de conhecer a origem das coisas para as sociedades indígenas. Caso da democracia. Lógica mitológica. Conhecer a origem é a possibilidade de dar um uso bom a alguma coisa. No caso de cortar árvores, iam com os brancos que segundo eles tinham outras regras espirituais e neste caso ao voltar para suas comunidades não consegue mais entrar na sociedade guarani. Vêem as árvores como objetos já que nenhum cuidador religioso veio punir os brancos pelo seu ato. Quebrar uma regra e não acontecer nada tem uma dinâmica mais generalizada e implicação no todo. Xamanismo é mais ativo na Colômbia, mas está diminuindo e perdendo o poder. Menciona a medicina branca. Dependem menos da caça e não precisam seguir todas as regras do xamã. Xamã cuida para que não seja usado excessivamente o meio ambiente. Assim, vai se perdendo a orientação tradicional. Por outro lado, estes jovens estão excluídos porque não tem pleno acesso ao mundo dos brancos. Outro elemento é o fato de que a idade é um fator complicador que intensifica os problemas. As famílias mais tradicionais procuram evitar o contato com o branco e esta diferença está visível no corpo dos índios. As comunidades mantêm ainda focos de orientação tradicional. Comenta sobre o casamento que o contato mais intenso com o entorno, nas changas e as conversas sobre mulheres com não-índios, além das relações com prostitutas, tem mudado o modo de relacionamento no interior das comunidades. Dra. Paz afirma que conheceu várias histórias de vida de pessoas que voltaram a se equilibrar ou para o lado do branco ou para o lado tradicional. A condição do órfão é impactante na formação da personalidade indígena. Não ter quem cuidar implica em perder sentido nesta sociedade. Precisamos ter claro qual o conceito dos índios de educação para então decifrar o que o outro quer. E se esta decifração ocorre num lugar, não significa que ocorrerá em outro. Conselho para mestrando que quer fazer pesquisa neste campo: espírito de aventura, resposta da Dra. Paz. Ter tempo e disposição. Reduzir a temática para conseguir entender. Não dá pra ficar uma semana na aldeia. Adaptar-se ao ritmo. Nosso ritmo é muito rápido. O ritmo da aldeia é diferente e nas mais tradicionais é mais lento. Quando nos adaptamos ao ritmo, a comunicação vai ocorrer porque eles são muito comunicativos gostam de ouvir coisas dos brancos e contar coisas deles. Deixar a iniciativa com os índios. Uma das coisas mais importantes. Não tentar fingir o que não é. Comportar-se tão honestamente quanto é possível. As mulheres tinham direito de uso do produto do roçado. Muitas mulheres curandeiras, tornaram-se, depois, agente de saúde. O colonialismo deu mais poder aos homens do que de fato tinham nas comunidades tradicionais. As mulheres, conseqüentemente, ficaram com muito pouca participação na política. Em muitos casos é a mulher da liderança política que tem direito à terra. Observa que se perdeu as regras de respeito às mulheres. Não há mecanismo formal para afirmação das mulheres. Relatório do CIMI sobre violência nas áreas indígenas indica que 70% dos casos são nas áreas guarani. Segundo hipótese da Dra. Paz Grünberg este aumento da violência expressa uma saída ainda que insuficiente da passividade expressa pela violência contra si mesmo que é o suicídio. A relação do guarani com o conceito de violência é diferente do nosso. Dra. Paz. Grünberg comenta que no Paraguai que alguém que assassinou é acompanhado por muitos anos pela comunidade até que se reabilite. Comenta ainda que elemento chave é a terra. Embora se diga que a mulher é a família que segura os filhos. Por outro lado não tem tantos recursos para se recompor internamente. Aí fica a solução a se recorrer aos conselhos tutelares. As mulheres tem usado estas alternativas para recuperar seu papel.
Manhã
A aula iniciou com uma apresentação dos participantes, alunos de linha 3, Interculturalidade e Educação, do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Católica Dom Bosco. Os trabalhos foram coordenados pelos professores Antonio Brand e Adir Casaro Nascimento. Participaram da aula o prof. Celso Aoki, que trabalha com os kaiowá desde 1978. A dra. Paz Grumberg, antropóloga austríaca, possui larga experiência de trabalho de campo com os Kaiowá no Brasil e Paraguai e em sua página podem ser obtidas informações mais detalhadas sobre suas pesquisas. Educação indígena, educação escolar.
A antropóloga trabalhou na cooperação internacional, formação dos cooperantes para trabalho em outra cultura. Este trabalho envolveu de carpinteiros a médicos e teve enfoque na prática. Uma queixa muito comum entre os índios é que eles não têm educação, nem saúde nas aldeias. Que significa esta queixa? Na década de 70, muitos índios se negaram a aprender a ler e escrever. Usavam argumentos religiosos dizendo que o paikuará, guardião do sol, já havia ensinado tudo o que era necessário para ter uma vida digna. Para eles, papel e escrita era coisa de karaí, do estrangeiro. Nesta época havia muita pressão das ONGs para alfabetizar os Guarani. Por outro lado, houve também casos de grupos que pediram formalmente para ser alfabetizados. Educação indígena tradicional. Visão de educação indígena. Que significa não temos educação. Do ponto de vista guarani esta frase quase não tem tradução para o idioma guarani tradicional. Não há no guarani, a expressão ter alguma coisa, mas usar. Possuir propriedade é algo comum para os não-índios. Não temos escola bonita com painel solar com papel lápis sem professor suficiente, merenda escolar poderia ser melhor. Isto é ter educação. Aprenderam que o branco é um ser que não gosta de distribuir. Antigamente, havia projetos agrícolas onde era possível conseguir coisas. Sempre se encontra algum menino que não tem vontade de ir para a escola. Os adultos ficavam pressionando os meninos a ir para a escola. Tem de ir lá para ganhar a merenda. Cada um tem seu trabalho e o trabalho dos meninos é ir à escola para ganhar a merenda. É a leitura da modernidade dos índios. Estão contextualizando a escola desta forma. Tradicionalmente, não se tinha educação. Se vivia a educação, desde o nascimento até a morte. Os mais sábios quase não falam mais, se educa pela presença. Tradicionalmente, não se ensina por meio de palavras, mas tekoharuvicha, liderança religiosa mais avançada. Caso de crianças que são ativas no processo de educação no grupo. Sonhos das crianças. Acreditam que, antes da maturidade sexual, tem mais acesso aos níveis espirituais. Movimento de busca da terra sme mal. Procurar uma terra melhor, não para a agricultura, mas um lugar com energias boas, sem enfermidades, sem e conflitos. Espaço tranqüilo. Se não é possível encontrar este lugar na terra, então busca-se num mundo espiritual. Os guarani têm falado em 7 níveis espirituais. Alguns destes movimentos de busca pela terra sem mal foram liderados por mulheres crianças de 11 ou 12 anos. A idade é relativa para estes índios. A criança é percebida como uma alma madura. É comum pedir conselhos ao filho antes de nascer. O que acontece, ao nascer, é que a criança perde os conhecimentos divinos e se transforma em ser humano pequeno dependente. A ênfase é que a criança é uma alma madura. Socialização européia proíbe muito as crianças. Observou crianças que estavam no início do aprender a caminhar brincavam perto do fogo e com machetes e isto não espantava os pais. Somente nos últimos momentos é que um adulto não intervinha. No pequeno corpo há uma alma madura e que há esta alma encontrará o caminho. Há confiança de que a alma encontrará seu caminho sem ser direcionada. Há conselhos indiretos ou comentários. A maneira como se lida com morte também é diferente. Para nós, morrer é indigno. Aquele que está morrendo não é separado. Assim, as crianças aprender a lidar de maneira mais natural com a morte porque se morre em casa. A vida na terra é temporária e a verdadeira pátria da alma está em outro lugar. Morrer no hospital é indigno. A educação não-indígena contrasta com o modo dos índios educar. Tavytera dizem que os meninos, antes de passar pela festa da iniciação, não devem ir à escola. Uma parte é aprender a letra e a outra é a prática de ler. Se escuta no livro os nossos conhecimentos e depois os conhecimentos dos brancos. Ñanderu que fez o ordenamento político do mundo antes de voltar para a sua terra. Na época de 76 houve forte repressão dos Guarani por parte da ditadura dos Stroessner. Somente em 1978 se iniciava o processo de alfabetização entre os tavyterã. Como os Guarani estão se adaptando às novas exigências. O fato de que outros indígenas já sabiam escrever não causou muito impacto entre os índios. Fizeram uma experiência negativa com o papel. Sem papel eram presos pela polícia, sem papel não tinham terras, o fazendeiro mostrava um papel para dizer que tinha direito à terra. Colocavam nas entradas das aldeias placas com o nome do tekoha, nome do lugar. Até a palavra iletrado é vista como pejorativa e relacionada ao engano. A sensação dos índios é que ninguém se importava com eles. Experiência com seitas cristãs que fracassaram. Sensação de que ninguém trabalhava com eles. Fala do potencial que tem por lá. Como pensar uma educação mais próxima do que eles pensam. A educação tradicional mudou. Naquele tempo era bem forte. Observa que em alguns ambientes não se pratica mais esta regra. Uma das regras tradicionais é não bater nos filhos. Se bater, vai sair sombra de sangue na mão de quem bate. Se bater num menino vai ficar alterado. Concepção de criança. Educação seria um apoio à caminhada. Língua materna e processos próprios de aprendizagem, princípios da legislação brasileira para educação indígena. Educação é uma coisa e informação é outra. Primeiro é ajudar a conduzir, vem do latim educere. Experiências de escolas auto-organizadas chamadas de selvagens. Currículos elaborados pelos pais e professores. Viagem pela Colômbia. Experiências mais avançadas dos próprios índios elaborarem os currículos e o respeito. Fala de casos isolados que auxilia os índios. Cita caso do rio negro, relatados pela professora Marta Azevedo, e experiência de elaborar material de ensino nas línguas maternas. Com relação à diferença entre meninos e meninos não há diferença até aproximadamente 12 anos de idade. As crianças vão procurando comidas nas casas durante o dia ou cozinham a própria comida com pouco ou quase nenhuma ajuda dos brancos. O grupo de crianças educa a si mesmo quase sem nenhuma intervenção por parte dos adultos. Background: pós-guerra e o movimento de 68. Os europeus não sabem como lidar com os conflitos. Nos anos 80, se formou um grupo de pessoas interessadas em uma boa qualidade de vida. Compraram uma fábrica falida e procuraram dar um espaço aos próprios filhos. Este grupo de meninos desenvolveu um modelo de convivência muito semelhante ao que a antropóloga vivenciou entre os Guarani. Meninos de 2 a 14 anos. Educação indígena com respeito, livre. Educação dos alquimistas: acompanhar a personalidade e esperar que ela cresça. Polaridade entre educação indígena e educação escolar indígena. Letrado é sinônimo de cara esperto. Nas aldeias o professor é a pessoa letrada e acaba tendo mais participação política. Meninos usam sabugo de milho. Os dois sexos brincam com as mesmas coisas. Garotos levam bonecas e cozinham também. Observa que as meninas até 12 anos, as meninas tem mais personalidade. Há uma fase de educação formal: festa de iniciação dos meninos, entre 9 e 12 anos. Passam fase de reclusão na casa cerimonial. Comem só milho branco e banana nos tempos modernos. Chegam os padrinhos para ensinar nas técnicas religiosas: usar as pequenas flautas, mbaraká, rezas bailadas em círculo (jeroky). Guiados pelos padrinhos e acompanhados pelas mulheres com o takuá. As meninas passam por um ritual de iniciação no qual raspam a cabeça. Começo da primeira menstruação até o fim da segunda. As meninas ficam recolhidas. As mulheres são muito mais discretas com sua vida no geral. Tradicionalmente, os Guarani acreditam que há duas almas que habitam o corpo. Ñe’e, alma/palavra, e ??. a alma que habita o corpo está relacionado ao sangue, por isso, transfusão de sangue somente entre parentes. A pintura tem relação com a alma do corpo. Um menino que não tem mais a base tradicional vai aprender a nossa visão de mundo. Os conceitos têm de ser transmitidos indireta ou indiretamente. Cita a Europa que supostamente é civilizada/cristianizada, mas com muitos elementos que fazem referência ao passado antigo xamânico. Se não sabemos como lidar de maneira respeitosa com relação a determinado tema, então é melhor guardar distância. Caso do pajé vai, ou feiticeiro. Bom conhecimento é aquele que se tem um bom uso. A cada dois anos se vai dobrar a quantidade dos conhecimentos no mundo do branco. Primeira briga matrimonial entre os deuses como norma para lidar com os conflitos matrimoniais hoje. No Paraguai, nem indígena, nem não-indígena acreditam tanto no papel. O descuido ocorre com as coisas do branco. As coisas deles são muito bem cuidadas. Questão da mágica. Cita que em nossa sociedade há magia moderna como, por exemplo, auto-ajuda, pensamento positivo. Eu não tenho educação é uma forma de conseguir coisas. Eu não tenho saúde também. Há elemento do prestígio que algumas coisas dão. Há coisas tradicionais e coisas novas que dão prestígio. Painel solar, câmera de vídeo. Estas coisas dão prestígio. Chave da educação guarani que é o espaço para que a criança aprenda. Deixar ter raiva e com isso aprendem a lidar com a raiva. Vencer a raiva é caminhar para não ter mais no final da vida. Não negar a raiva, mas saber lidar. Líder político precisa ter raiva para agir, já o líder religioso que necessita superar a raiva. Tarde Com relação aos jovens e as mulheres. Tem de admitir que não sabemos nada deles. Necessidade de conhecer a aspiração dos jovens guarani nas aldeias. Comparar os jovens de uma comunidade antiga com outro tekoha mais novo, de 84 em diante. Afirma que há diferença significativa nestes dois tipos de comunidades. Trabalho na cana de açúcar e como isto influi na vida familiar deles. Situação de desorientação dos jovens, crise não somente relacionada à puberdade. Intenção de identificar-se com o jovem trabalhador rural. Música, roupas. Pode ser que na cidade haja maior identificação com os jovens urbanos devido à proximidade. Afirma que aqui são pouco conhecidas as comunidades mais ao sul e que tomamos por referência mais Dourados e Caarapó. Há casos de muitos jovens abandonados, instabilidade familiar. O avô Metabolismo indígena é diferente. Têm tolerância menor ao álcool. É o caso dos japoneses também que sentem muito mais rápido que os europeus. Por que as orientações tradicionais não funcionam mais. Desmatamento no Paraguai nos anos 1974. Em poucos anos desmataram o departamento de Amambai. Ingenuamente, pensava que nas comunidades guarani isto não iria acontecer com a sua floresta sagrada. Grande contradição. Animais de caça têm sua regra mitológica. Afirma que isto ficou mais claro na amazônia colombiana. Presenciou que as pessoas não aceitavam usar certas coisas antes de conhecer a origem. Menciona a importância de conhecer a origem das coisas para as sociedades indígenas. Caso da democracia. Lógica mitológica. Conhecer a origem é a possibilidade de dar um uso bom a alguma coisa. No caso de cortar árvores, iam com os brancos que segundo eles tinham outras regras espirituais e neste caso ao voltar para suas comunidades não consegue mais entrar na sociedade guarani. Vêem as árvores como objetos já que nenhum cuidador religioso veio punir os brancos pelo seu ato. Quebrar uma regra e não acontecer nada tem uma dinâmica mais generalizada e implicação no todo. Xamanismo é mais ativo na Colômbia, mas está diminuindo e perdendo o poder. Menciona a medicina branca. Dependem menos da caça e não precisam seguir todas as regras do xamã. Xamã cuida para que não seja usado excessivamente o meio ambiente. Assim, vai se perdendo a orientação tradicional. Por outro lado, estes jovens estão excluídos porque não tem pleno acesso ao mundo dos brancos. Outro elemento é o fato de que a idade é um fator complicador que intensifica os problemas. As famílias mais tradicionais procuram evitar o contato com o branco e esta diferença está visível no corpo dos índios. As comunidades mantêm ainda focos de orientação tradicional. Comenta sobre o casamento que o contato mais intenso com o entorno, nas changas e as conversas sobre mulheres com não-índios, além das relações com prostitutas, tem mudado o modo de relacionamento no interior das comunidades. Dra. Paz afirma que conheceu várias histórias de vida de pessoas que voltaram a se equilibrar ou para o lado do branco ou para o lado tradicional. A condição do órfão é impactante na formação da personalidade indígena. Não ter quem cuidar implica em perder sentido nesta sociedade. Precisamos ter claro qual o conceito dos índios de educação para então decifrar o que o outro quer. E se esta decifração ocorre num lugar, não significa que ocorrerá em outro. Conselho para mestrando que quer fazer pesquisa neste campo: espírito de aventura, resposta da Dra. Paz. Ter tempo e disposição. Reduzir a temática para conseguir entender. Não dá pra ficar uma semana na aldeia. Adaptar-se ao ritmo. Nosso ritmo é muito rápido. O ritmo da aldeia é diferente e nas mais tradicionais é mais lento. Quando nos adaptamos ao ritmo, a comunicação vai ocorrer porque eles são muito comunicativos gostam de ouvir coisas dos brancos e contar coisas deles. Deixar a iniciativa com os índios. Uma das coisas mais importantes. Não tentar fingir o que não é. Comportar-se tão honestamente quanto é possível. As mulheres tinham direito de uso do produto do roçado. Muitas mulheres curandeiras, tornaram-se, depois, agente de saúde. O colonialismo deu mais poder aos homens do que de fato tinham nas comunidades tradicionais. As mulheres, conseqüentemente, ficaram com muito pouca participação na política. Em muitos casos é a mulher da liderança política que tem direito à terra. Observa que se perdeu as regras de respeito às mulheres. Não há mecanismo formal para afirmação das mulheres. Relatório do CIMI sobre violência nas áreas indígenas indica que 70% dos casos são nas áreas guarani. Segundo hipótese da Dra. Paz Grünberg este aumento da violência expressa uma saída ainda que insuficiente da passividade expressa pela violência contra si mesmo que é o suicídio. A relação do guarani com o conceito de violência é diferente do nosso. Dra. Paz. Grünberg comenta que no Paraguai que alguém que assassinou é acompanhado por muitos anos pela comunidade até que se reabilite. Comenta ainda que elemento chave é a terra. Embora se diga que a mulher é a família que segura os filhos. Por outro lado não tem tantos recursos para se recompor internamente. Aí fica a solução a se recorrer aos conselhos tutelares. As mulheres tem usado estas alternativas para recuperar seu papel.
Palestra Dra. Paz Grumberg 2003
Palestra da Dra Paz Grünberg
dia 21 de fevereiro de 2003
Vila S. Pedro, Dourados, MS
Anotações realizadas por Antônio Brand
Referente às sociedades indígenas, há mudanças, embora mais lentas que as verificadas em nossa sociedade. Analisando a situação interna das sociedades guarani no Brasil, a pesquisadora verifica duas reações (tendências) opostas: - um movimento “conservador”, “reacionário” e; - um movimento “modernista”, buscando coisas novas e investindo nas mudanças. Essa situação cria tensão e confusão interna e em quem acompanha de fora. Como agente externo, tenho que me definir frente a essas duas reações: posicionar-me e engajar-me em uma tendência, sem negar a existência da outra. No que se refere às mudanças, há dois fatores relevantes para avaliar seu impacto, ou seja, a possibilidade de “dar certo”. Há fatores internos, culturais, que podem facilitar essas mudanças decorrentes do contato e do novo contexto e há fatores externos, entre os quais ressalta a questão do tempo em que essas mudanças ocorrem, que no Brasil tem sido muito reduzido. As mudanças no entorno e no interior das áreas indígenas no Brasil têm sido muito rápidas, profundas, com perdas irrecuperáveis. No Paraguai tem-se verificado condições externas mais favoráveis, nesse sentido. O contato com as frentes de ocupação foi mais tardio e menos radical, permitindo aos Guarani “esconder-se” por mais tempo e o contato dava-se especialmente com campesinos que apesar do preconceito, falavam guarani e eram culturalmente muito próximos dos próprios Guarani. A interferência na vida interna das comunidades foi maior no Brasil que no Paraguai. Por isso ainda hoje verificamos, no Paraguai, uma maior persistência e funcionamento dos mecanismos tradicionais de chefia e outros. Há mecanismos tradicionais que não funcionam mais bem e os novos mecanismos ainda não estão sedimentados. Um caso exemplar verifica-se na escolha dos capitães pelo voto, através de eleições. Ao contrário dos processos tradicionais de decisão através do diálogo e de construção do consenso, a eleição gera grupos não contemplados, que ou se isolam ou fazem oposição, com raiva e com grande potencial de agressividade, gerado pelo não funcionamento do sistema tradicional. Analisando o crescimento dos índices de violência interna afirma que os Guarani sabiam que o homem era um ser agressivo e tinham grande preocupação em manejar essa agressividade. Segundo a pesquisadora, pode-se afirmar que a vida do guarani é um constante aprender a manejar a agressividade. Tinham, por isso, importantes mecanismos voltados não para o castigo do agressor, mas para sua reintegração. Entendem os Guarani, segundo a Dra Paz, que o crime, a violência é indicativo de desequilíbrio na sociedade, não caindo a culpa sobre o indivíduo, autor. Por isso mesmo, todos os procedimentos estavam voltadas à reconstrução do equilíbrio, como processo de reintegração do agressor. Sua concepção de doença decorre dessa mesma concepção. A doença é entendida como desequilíbrio do grupo, da sociedade, podendo atingir determinada pessoa por ser a mais frágil. Não cabe, portanto, atribuir-lhe responsabilidade pessoal, decorrendo dessa percepção o interesse do grupo como um todo em buscar o reequilíbrio junto com essa pessoa, seja doente ou criminoso. Esses processos de reequilíbrio consistem fundamental em muitas e longas conversas, fazendo perceber ao agressor que ele deve se submeter ao poder do outro. À pergunta sobre o que nos cabe fazer frente a essa situação, a pesquisadora entende que devemos, inicialmente, buscar conhecer e saber qual a verdadeira pergunta do outro e suas necessidades (e não apenas seus desejos), restringindo-nos a oferecer ajuda, buscando evitar e dominar os impulsos na direção da ajuda e do assistencialismo. E isso, segundo a Dra Paz, não é fácil porque sempre pensamos ter a resposta certa. Para a nossa sociedade o saber é fator de prestígio e assumir o não-saber é difícil. Sempre achamos que sabemos. Somos condicionados pela nossa lógica e temos dificuldades em compreender o outro. Referindo-se ao desmatamento que atinge as áreas Guarani, a pesquisadora chama atenção para o fato de que analisamos muitas vezes esse fato apenas enquanto desaparecimento do mato e ausência de árvores e esquecemos que junto desapareceu boa parte da vida espiritual, pois essas árvores tinham seus donos - jara, que eram cuidadores/protetores da mata. Verificava-se um “intercâmbio cotidiano” entre os Guarani e a mata, que “nutria a eles e que nós não conhecemos e por isso não compreendemos”, afirmou. Tradicionalmente pediam permissão antes de derrubar uma árvore. Porém, quando engajados nas grandes derrubadas nas fazendas, essa prática foi abandonada, pois eles não se sentem responsáveis pelas coisas no mundo dos “brancos” (fez referência à cachaça e aos tratores entendidos como algo do “branco”). Aí se rompeu essa prática de relacionar-se com a mata e como a sua sabedoria está na prática essa acaba se perdendo. A nossa religião, afirmou, está assentada na fé e a dos Guarani na experiência religiosa, na escuta (e não no acreditar). O fato de serem um povo profundamente religioso, lhes dá uma força interna grande que vem de sua identidade étnica apoiada na religião, permitindo manter-se (em situações de forte agressão externa), mas com muito sofrimento. Muitas experiências não ocorrem mais hoje. A vida religiosa exige um grupo que acompanha e que hoje não tem mais. O chamado à vida religiosa exige ascese e reclusão que hoje é difícil. Criou-se, então, um vazio no interior das comunidades. Os sábios guarani sabiam acompanhar os problemas que surgiam e hoje não tem mais quem faça isso. Procuram, então, soluções fora da comunidade, nas Igrejas e seitas, buscando suprir o vazio provocado pela ausência dos caciques. E essas Igrejas atraem porque trabalham com a cura, a orientação e a experiência religiosa, permitindo respostas. (apesar de outras conseqüências como o aumento da divisão interna que elas provocam). Porém, apesar disso tudo, os Guarani seguem identificando-se como grupo e não como indivíduo, como acontece em nossa sociedade. À pergunta de como lidar com as contradições internas, a pesquisadora destacou que nos trabalhos com a questão territorial, há um envolvimento maior dos mais velhos, que tem a memória dos territórios. A agricultura tradicional está quase inviabilizada, exceto em raros casos, mas onde a previsão máxima para a sua viabilidade é de dez anos. Foi-lhes imposta a agricultura moderna, mas sem condições de seguir com ela. Lembrou que experiências agroflorestais (agroecológicas) poderiam ser uma resposta, não só no campo econômico, mas também uma forma das pessoas reencontrarem sentido para suas vidas. Lembrou que o problema de fundo para os integrantes dessas sociedades é adquirir prestígio (para nós o desafio é adquirir bens, dinheiro), distinguindo muito bem quando se trata de aparência apenas e quando se trata de habilidade efetiva. Os homens têm mais necessidade de prestígio e de se projetar. Hoje, nossas iniciativas concentram, muitas vezes, apenas prestígio nas lideranças da área, (privilegiam os capitães, professores, agentes de saúde e alguns mais e muitas vezes apenas no campo político), tendo pouca chance para os demais adquirirem prestígio e de se projetarem. A forma de cada homem se projetar era adquirir um conhecimento maior ou alguma especialização necessária para a vida da comunidade. E, nesse sentido, a pesquisadora entende que os projetos agroflorestais, acompanhados de muita discussão, poderiam permitir a reconstrução de formas e alternativas de prestígio para os homens da comunidade, buscando respostas a novos desafios que esses projetos podem apresentar. Lembrou que o que falta hoje são pessoas que discutam com eles, dando passos concretos com eles. Questionada sobre a persistência dos valores tradicionais entre os Kaiowá e Guarani, Dra Paz entende que talvez sigam mais no inconsciente. Por isso, afirma ela, temos pela frente o desafio de encontrar jeitos de animar essas estruturas persistentes, através de projetos que ofereçam alternativas de prestigio. Porém, enquanto permanece a crítica interna aos desvios, é sinal de que a estrutura ainda funciona e isso é alentador. E a família extensa segue com bastante força. É bastante difícil, segundo a pesquisadora, apreender toda a abrangência e complexidade das relações internas. No entanto, é fundamental saber que quando estabeleço uma relação com alguém estabeleço relação com sua família extensa. A família nuclear é mais um espaço de convivência. Na política interna a família extensa segue com muita força. Saber o papel do interlocutor na comunidade, sua família, é mais importante do que o conhecimento que ele possa ter do assunto que nos interessa. Determinados agentes de saúde ou professores não dão certo não porque não tem capacidade para tal, mas porque não lhe dão chance, ou seja, não tem apoio político (família grande). O que adianta ter a reza para uma boa caça se não existe mais o animal a ser caçado, perguntava Paz. Finalmente afirmou que não conhecemos a visão dos mais jovens, sua visão de mundo e que “trata-se de construir e não reconstruir”. Finalizando os trabalhos da parte da manhã, lembrou que segundo um informante indígena os Guarani “andam como bêbados... continuam vivendo em seu território, mas que não é mais seu”. Na parte da tarde iniciou com a pergunta de como identificar um problema porque, na denominação do problema já indicamos uma solução técnica. No contexto da desnutrição, em muitos casos, não se trata de falta de comida, mas é conseqüência de rápidas mudanças na alimentação e de problemas sociais. A mãe não cuida bem da criança e não lhe dá comida como protesto contra o marido ou por outra situação de impasse que vivencia. Tem a ver com o sentir-se bem (avy-a), o que hoje é difícil. Por vezes a falta de plantação não é conseqüência da falta de terra ou sementes, mas de ânimo. Por isso é fundamental ver sempre o entorno social do problema, acompanhar e construir relações de confiança. Há dois desafios no encaminhamento de um projeto: - como conseguir que o outro compreenda a idéia e a traduza para o seu universo e; - se convença da importância de sua implementação, se responsabilize pela idéia. O ideal é trabalhar com as pessoas de meia idade. É importante, ainda, não esquecer de que somos classificados por eles de acordo com as nossas possibilidades em oferecer algo, inclusive em termos de política interna. Por isso é importante ver bem com quem nos articulamos. Retornando à questão da divisão interna. Afirma que tradicionalmente os Guarani tinham um mburuvicha (chefe, capitão) e dois responsáveis pela política interna e externa (ivira`yja). Tinha, ainda, tekoraruvicha responsável pela vida ética e não tanto religiosa, controlando indiretamente as lideranças políticas. Dedicavam muito tempo ao manejo da política. Nossos projetos ao privilegiarem a figura dos capitães enfraquecem a oposição interna. Os capitães deviam ser os que mais distribuem e acabam acumulando causando grande mal estar, sendo que se mantém, muitas vezes, com apoio externo. Os Mburuvicha não têm mais tempo para o aconselhamento e para os mecanismos de reequilibrio interno, dando uma certa noção de impunidade, não em nosso sentido, mas pelo fato de não vigorar mais os mecanismos internos de reequilibrio. O jovem não tem mais o acompanhamento da comunidade, no sentido de garantir o caminho de volta para o agressor. Tem violência e o jovem percebe que nada acontece e ele acaba sem limites, ou seja, sem conselhos). Finalizando seus comentários sobre essa questão, afirmou que é importante conhecer também os grupos internos de oposição. Referente à relação homem x mulher, iniciou destacando que a entrada do dinheiro, a partir da década de 1970, através dos homens, tornou a mulher dependente e começou a alterar o estatuto da mulher que estava tradicionalmente apoiado no respeito. Reconhece que na década de 1960 eram poucos os casos de divórcio entre os Kaiowá e Guarani. A entrada dos valores da sociedade nacional enfraqueceu o papel da mulher, não se conseguindo mais que os homens respeitem as normas. Segundo essas normas cabia à mulher, através de uma comunicação muito indireta, dar sinais de interesse sexual que o homem respeitava. Hoje os homens assumem novos comportamentos e que não são bem aceitos pelas mulheres. Como resultado, a violência física e as agressões sexuais cresceram assustadoramente, sendo o fato mais grave a atitude de resignação das mulheres que não mais reagem. Frente à pergunta se seria o caso de uma ação de apoio externa frente ao problema, a pesquisadora entende que essa seria legítima, porém teria que se ter muito cuidado, tendo sempre presente que foi a nossa sociedade que gerou esses problemas. Não seria recomendável uma intervenção direta, mas no contexto de uma relação de intimidade, sem caracterizar como intervenção externa. Aliás, segundo a pesquisadora, é recomendável entrar em contato/diálogo com eles de forma indireta, buscando que eles assumam as iniciativas. “eles nunca buscam atingir diretamente o problema, ma o abordam de forma indireta". Eles vão ter que desenvolver novos mecanismos, mas o importante é começar (e não resolver). O que mais afeta a eles, segundo a pesquisadora é a resignação, junto com o não funcionamento dos mecanismos internos tradicionais. Essa falta de orientação e insegurança decorrente desse quadro, junto com a baixa autoestima, pode levar ao suicídio, mesmo que a pessoa não tenha tido problemas anteriores relevantes. De outra parte, as plantas medicinais não funcionam mais porque os corpos mudaram, resultado das mudanças na alimentação, que diminui a sua sensibilidade frente aos remédios tradicionais. Analisando a presença dos índios nas cidades, destaca o esforço de tornar-se invisível porque sabem o que a sociedade pensa sobre eles, ao mesmo tempo em que tem tantas coisas que os atraem. Quanto à pergunta sobre o papel dos professores indígenas, a pesquisadora respondeu que eles têm grande influência na formação dos valores. Por isso é recomendável que sejam mulheres e homens. Referente aos territórios, entende que é fundamental a sua ampliação para que tenham condições mais favoráveis de se reorganizarem em pequenos grupos. Essa ampliação territorial tem um potencial de reorganização social maior.
dia 21 de fevereiro de 2003
Vila S. Pedro, Dourados, MS
Anotações realizadas por Antônio Brand
Referente às sociedades indígenas, há mudanças, embora mais lentas que as verificadas em nossa sociedade. Analisando a situação interna das sociedades guarani no Brasil, a pesquisadora verifica duas reações (tendências) opostas: - um movimento “conservador”, “reacionário” e; - um movimento “modernista”, buscando coisas novas e investindo nas mudanças. Essa situação cria tensão e confusão interna e em quem acompanha de fora. Como agente externo, tenho que me definir frente a essas duas reações: posicionar-me e engajar-me em uma tendência, sem negar a existência da outra. No que se refere às mudanças, há dois fatores relevantes para avaliar seu impacto, ou seja, a possibilidade de “dar certo”. Há fatores internos, culturais, que podem facilitar essas mudanças decorrentes do contato e do novo contexto e há fatores externos, entre os quais ressalta a questão do tempo em que essas mudanças ocorrem, que no Brasil tem sido muito reduzido. As mudanças no entorno e no interior das áreas indígenas no Brasil têm sido muito rápidas, profundas, com perdas irrecuperáveis. No Paraguai tem-se verificado condições externas mais favoráveis, nesse sentido. O contato com as frentes de ocupação foi mais tardio e menos radical, permitindo aos Guarani “esconder-se” por mais tempo e o contato dava-se especialmente com campesinos que apesar do preconceito, falavam guarani e eram culturalmente muito próximos dos próprios Guarani. A interferência na vida interna das comunidades foi maior no Brasil que no Paraguai. Por isso ainda hoje verificamos, no Paraguai, uma maior persistência e funcionamento dos mecanismos tradicionais de chefia e outros. Há mecanismos tradicionais que não funcionam mais bem e os novos mecanismos ainda não estão sedimentados. Um caso exemplar verifica-se na escolha dos capitães pelo voto, através de eleições. Ao contrário dos processos tradicionais de decisão através do diálogo e de construção do consenso, a eleição gera grupos não contemplados, que ou se isolam ou fazem oposição, com raiva e com grande potencial de agressividade, gerado pelo não funcionamento do sistema tradicional. Analisando o crescimento dos índices de violência interna afirma que os Guarani sabiam que o homem era um ser agressivo e tinham grande preocupação em manejar essa agressividade. Segundo a pesquisadora, pode-se afirmar que a vida do guarani é um constante aprender a manejar a agressividade. Tinham, por isso, importantes mecanismos voltados não para o castigo do agressor, mas para sua reintegração. Entendem os Guarani, segundo a Dra Paz, que o crime, a violência é indicativo de desequilíbrio na sociedade, não caindo a culpa sobre o indivíduo, autor. Por isso mesmo, todos os procedimentos estavam voltadas à reconstrução do equilíbrio, como processo de reintegração do agressor. Sua concepção de doença decorre dessa mesma concepção. A doença é entendida como desequilíbrio do grupo, da sociedade, podendo atingir determinada pessoa por ser a mais frágil. Não cabe, portanto, atribuir-lhe responsabilidade pessoal, decorrendo dessa percepção o interesse do grupo como um todo em buscar o reequilíbrio junto com essa pessoa, seja doente ou criminoso. Esses processos de reequilíbrio consistem fundamental em muitas e longas conversas, fazendo perceber ao agressor que ele deve se submeter ao poder do outro. À pergunta sobre o que nos cabe fazer frente a essa situação, a pesquisadora entende que devemos, inicialmente, buscar conhecer e saber qual a verdadeira pergunta do outro e suas necessidades (e não apenas seus desejos), restringindo-nos a oferecer ajuda, buscando evitar e dominar os impulsos na direção da ajuda e do assistencialismo. E isso, segundo a Dra Paz, não é fácil porque sempre pensamos ter a resposta certa. Para a nossa sociedade o saber é fator de prestígio e assumir o não-saber é difícil. Sempre achamos que sabemos. Somos condicionados pela nossa lógica e temos dificuldades em compreender o outro. Referindo-se ao desmatamento que atinge as áreas Guarani, a pesquisadora chama atenção para o fato de que analisamos muitas vezes esse fato apenas enquanto desaparecimento do mato e ausência de árvores e esquecemos que junto desapareceu boa parte da vida espiritual, pois essas árvores tinham seus donos - jara, que eram cuidadores/protetores da mata. Verificava-se um “intercâmbio cotidiano” entre os Guarani e a mata, que “nutria a eles e que nós não conhecemos e por isso não compreendemos”, afirmou. Tradicionalmente pediam permissão antes de derrubar uma árvore. Porém, quando engajados nas grandes derrubadas nas fazendas, essa prática foi abandonada, pois eles não se sentem responsáveis pelas coisas no mundo dos “brancos” (fez referência à cachaça e aos tratores entendidos como algo do “branco”). Aí se rompeu essa prática de relacionar-se com a mata e como a sua sabedoria está na prática essa acaba se perdendo. A nossa religião, afirmou, está assentada na fé e a dos Guarani na experiência religiosa, na escuta (e não no acreditar). O fato de serem um povo profundamente religioso, lhes dá uma força interna grande que vem de sua identidade étnica apoiada na religião, permitindo manter-se (em situações de forte agressão externa), mas com muito sofrimento. Muitas experiências não ocorrem mais hoje. A vida religiosa exige um grupo que acompanha e que hoje não tem mais. O chamado à vida religiosa exige ascese e reclusão que hoje é difícil. Criou-se, então, um vazio no interior das comunidades. Os sábios guarani sabiam acompanhar os problemas que surgiam e hoje não tem mais quem faça isso. Procuram, então, soluções fora da comunidade, nas Igrejas e seitas, buscando suprir o vazio provocado pela ausência dos caciques. E essas Igrejas atraem porque trabalham com a cura, a orientação e a experiência religiosa, permitindo respostas. (apesar de outras conseqüências como o aumento da divisão interna que elas provocam). Porém, apesar disso tudo, os Guarani seguem identificando-se como grupo e não como indivíduo, como acontece em nossa sociedade. À pergunta de como lidar com as contradições internas, a pesquisadora destacou que nos trabalhos com a questão territorial, há um envolvimento maior dos mais velhos, que tem a memória dos territórios. A agricultura tradicional está quase inviabilizada, exceto em raros casos, mas onde a previsão máxima para a sua viabilidade é de dez anos. Foi-lhes imposta a agricultura moderna, mas sem condições de seguir com ela. Lembrou que experiências agroflorestais (agroecológicas) poderiam ser uma resposta, não só no campo econômico, mas também uma forma das pessoas reencontrarem sentido para suas vidas. Lembrou que o problema de fundo para os integrantes dessas sociedades é adquirir prestígio (para nós o desafio é adquirir bens, dinheiro), distinguindo muito bem quando se trata de aparência apenas e quando se trata de habilidade efetiva. Os homens têm mais necessidade de prestígio e de se projetar. Hoje, nossas iniciativas concentram, muitas vezes, apenas prestígio nas lideranças da área, (privilegiam os capitães, professores, agentes de saúde e alguns mais e muitas vezes apenas no campo político), tendo pouca chance para os demais adquirirem prestígio e de se projetarem. A forma de cada homem se projetar era adquirir um conhecimento maior ou alguma especialização necessária para a vida da comunidade. E, nesse sentido, a pesquisadora entende que os projetos agroflorestais, acompanhados de muita discussão, poderiam permitir a reconstrução de formas e alternativas de prestígio para os homens da comunidade, buscando respostas a novos desafios que esses projetos podem apresentar. Lembrou que o que falta hoje são pessoas que discutam com eles, dando passos concretos com eles. Questionada sobre a persistência dos valores tradicionais entre os Kaiowá e Guarani, Dra Paz entende que talvez sigam mais no inconsciente. Por isso, afirma ela, temos pela frente o desafio de encontrar jeitos de animar essas estruturas persistentes, através de projetos que ofereçam alternativas de prestigio. Porém, enquanto permanece a crítica interna aos desvios, é sinal de que a estrutura ainda funciona e isso é alentador. E a família extensa segue com bastante força. É bastante difícil, segundo a pesquisadora, apreender toda a abrangência e complexidade das relações internas. No entanto, é fundamental saber que quando estabeleço uma relação com alguém estabeleço relação com sua família extensa. A família nuclear é mais um espaço de convivência. Na política interna a família extensa segue com muita força. Saber o papel do interlocutor na comunidade, sua família, é mais importante do que o conhecimento que ele possa ter do assunto que nos interessa. Determinados agentes de saúde ou professores não dão certo não porque não tem capacidade para tal, mas porque não lhe dão chance, ou seja, não tem apoio político (família grande). O que adianta ter a reza para uma boa caça se não existe mais o animal a ser caçado, perguntava Paz. Finalmente afirmou que não conhecemos a visão dos mais jovens, sua visão de mundo e que “trata-se de construir e não reconstruir”. Finalizando os trabalhos da parte da manhã, lembrou que segundo um informante indígena os Guarani “andam como bêbados... continuam vivendo em seu território, mas que não é mais seu”. Na parte da tarde iniciou com a pergunta de como identificar um problema porque, na denominação do problema já indicamos uma solução técnica. No contexto da desnutrição, em muitos casos, não se trata de falta de comida, mas é conseqüência de rápidas mudanças na alimentação e de problemas sociais. A mãe não cuida bem da criança e não lhe dá comida como protesto contra o marido ou por outra situação de impasse que vivencia. Tem a ver com o sentir-se bem (avy-a), o que hoje é difícil. Por vezes a falta de plantação não é conseqüência da falta de terra ou sementes, mas de ânimo. Por isso é fundamental ver sempre o entorno social do problema, acompanhar e construir relações de confiança. Há dois desafios no encaminhamento de um projeto: - como conseguir que o outro compreenda a idéia e a traduza para o seu universo e; - se convença da importância de sua implementação, se responsabilize pela idéia. O ideal é trabalhar com as pessoas de meia idade. É importante, ainda, não esquecer de que somos classificados por eles de acordo com as nossas possibilidades em oferecer algo, inclusive em termos de política interna. Por isso é importante ver bem com quem nos articulamos. Retornando à questão da divisão interna. Afirma que tradicionalmente os Guarani tinham um mburuvicha (chefe, capitão) e dois responsáveis pela política interna e externa (ivira`yja). Tinha, ainda, tekoraruvicha responsável pela vida ética e não tanto religiosa, controlando indiretamente as lideranças políticas. Dedicavam muito tempo ao manejo da política. Nossos projetos ao privilegiarem a figura dos capitães enfraquecem a oposição interna. Os capitães deviam ser os que mais distribuem e acabam acumulando causando grande mal estar, sendo que se mantém, muitas vezes, com apoio externo. Os Mburuvicha não têm mais tempo para o aconselhamento e para os mecanismos de reequilibrio interno, dando uma certa noção de impunidade, não em nosso sentido, mas pelo fato de não vigorar mais os mecanismos internos de reequilibrio. O jovem não tem mais o acompanhamento da comunidade, no sentido de garantir o caminho de volta para o agressor. Tem violência e o jovem percebe que nada acontece e ele acaba sem limites, ou seja, sem conselhos). Finalizando seus comentários sobre essa questão, afirmou que é importante conhecer também os grupos internos de oposição. Referente à relação homem x mulher, iniciou destacando que a entrada do dinheiro, a partir da década de 1970, através dos homens, tornou a mulher dependente e começou a alterar o estatuto da mulher que estava tradicionalmente apoiado no respeito. Reconhece que na década de 1960 eram poucos os casos de divórcio entre os Kaiowá e Guarani. A entrada dos valores da sociedade nacional enfraqueceu o papel da mulher, não se conseguindo mais que os homens respeitem as normas. Segundo essas normas cabia à mulher, através de uma comunicação muito indireta, dar sinais de interesse sexual que o homem respeitava. Hoje os homens assumem novos comportamentos e que não são bem aceitos pelas mulheres. Como resultado, a violência física e as agressões sexuais cresceram assustadoramente, sendo o fato mais grave a atitude de resignação das mulheres que não mais reagem. Frente à pergunta se seria o caso de uma ação de apoio externa frente ao problema, a pesquisadora entende que essa seria legítima, porém teria que se ter muito cuidado, tendo sempre presente que foi a nossa sociedade que gerou esses problemas. Não seria recomendável uma intervenção direta, mas no contexto de uma relação de intimidade, sem caracterizar como intervenção externa. Aliás, segundo a pesquisadora, é recomendável entrar em contato/diálogo com eles de forma indireta, buscando que eles assumam as iniciativas. “eles nunca buscam atingir diretamente o problema, ma o abordam de forma indireta". Eles vão ter que desenvolver novos mecanismos, mas o importante é começar (e não resolver). O que mais afeta a eles, segundo a pesquisadora é a resignação, junto com o não funcionamento dos mecanismos internos tradicionais. Essa falta de orientação e insegurança decorrente desse quadro, junto com a baixa autoestima, pode levar ao suicídio, mesmo que a pessoa não tenha tido problemas anteriores relevantes. De outra parte, as plantas medicinais não funcionam mais porque os corpos mudaram, resultado das mudanças na alimentação, que diminui a sua sensibilidade frente aos remédios tradicionais. Analisando a presença dos índios nas cidades, destaca o esforço de tornar-se invisível porque sabem o que a sociedade pensa sobre eles, ao mesmo tempo em que tem tantas coisas que os atraem. Quanto à pergunta sobre o papel dos professores indígenas, a pesquisadora respondeu que eles têm grande influência na formação dos valores. Por isso é recomendável que sejam mulheres e homens. Referente aos territórios, entende que é fundamental a sua ampliação para que tenham condições mais favoráveis de se reorganizarem em pequenos grupos. Essa ampliação territorial tem um potencial de reorganização social maior.
domingo, 3 de maio de 2009
Culturas Híbridas e Poderes Oblíquos
Em Culturas Híbridas (Edusp, 2008), o autor argentino propõe um interessante caminho de reflexão sobre o que ele denomina de hibridação cultural nos países latino-americanos. A cultura na América Latina é pensada nesta obra tendo em vista a complexidade das relações que configuram na atualidade: tradições culturais coexistindo com a modernidade. Esta, segundo Canclini, ainda não terminou de chegar por aqui. Além disso, os projetos de modernização em curso têm seus valores já desacreditados pelas filosofias pós-modernas. Para compreender o diálogo vivo que se dá no contexto latino-americano contemporâneo entre a cultura erudita, a popular e a de massas (apoiada pelos avanços tecnológicos), o autor lança mão de abordagem interdisciplinar. E, para observá-lo no cenário mundial, investe num tratamento intercultural do tema.
Neste sentido, a obra estabelece, o problema da crise atual da modernidade, em suas peculiaridades latino-americanas. Reúne os saberes parciais das disciplinas que se ocupam da cultura - antropologia, sociologia, comunicação, história, literatura, história da arte, filosofia, etc. - procurando elaborar uma interpretação plausível das contradições e dos fracassos de nossa modernização. E, ao mesmo tempo, contrasta os estudos relativos à realidade cultural latino-americana com estudos sobre países do chamado Primeiro Mundo...
A obliquidade é necessária com corretivo ao poder que, como sempre, é totalizador. Mais necessária em nossos tempos pós-modernos em que as promessas de igualdade da modernidade se esvaíram e também as formas tradicionais de participação política como sindictos e partidos políticos.
Neste sentido, a obra estabelece, o problema da crise atual da modernidade, em suas peculiaridades latino-americanas. Reúne os saberes parciais das disciplinas que se ocupam da cultura - antropologia, sociologia, comunicação, história, literatura, história da arte, filosofia, etc. - procurando elaborar uma interpretação plausível das contradições e dos fracassos de nossa modernização. E, ao mesmo tempo, contrasta os estudos relativos à realidade cultural latino-americana com estudos sobre países do chamado Primeiro Mundo...
A obliquidade é necessária com corretivo ao poder que, como sempre, é totalizador. Mais necessária em nossos tempos pós-modernos em que as promessas de igualdade da modernidade se esvaíram e também as formas tradicionais de participação política como sindictos e partidos políticos.
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